Projeto universitário cria roupas adaptadas e amplia debate sobre inclusão na moda

Para isso, o curso de Moda conta com a participação do projeto de extensão Reabilitação Multidisciplinar em Amputados (Ramp), do Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (Cefid), também da Udesc, e do projeto de extensão Jornalismo e Ação Comunitária do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  

Na contramão da indústria têxtil catarinense, o projeto Moda Inclusiva, tem praticado a co-criação entre 40 estudantes e 16 modelos amputados, transformando a sala de aula em um laboratório que trabalha a moda como uma ferramenta de inclusão.

A moda inclusiva é um segmento que busca funcionalidade, conforto e autonomia ao propor um redesenho completo das roupas com base nas necessidades específicas de cada pessoa. Isso envolve, por exemplo, fechos adaptados para quem tem limitações motoras, tecidos que evitam sensibilidade tátil e modelagens que facilitam o uso.

Em Santa Catarina (SC), 499 mil pessoas têm algum tipo de deficiência, o que representa 6,9% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas enquanto o estado se consolida como o segundo maior polo têxtil do país, responsável por 26,7% de toda a produção nacional de tecidos e vestuário, as demandas desse público seguem desatendidas.

Nenhuma das 10 mil empresas catarinenses, que integram uma cadeia completa, da fiação à confecção final, possui produção de roupas adaptadas para pessoas com deficiência, de acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

Santa Catarina se consolidou como uma potência nacional na produção têxtil. Em 2024, o estado registrou crescimento de 7,1% na fabricação de produtos, com uma movimentação de R$ 40,3 bilhões, segundo dados da Fiesc. O desempenho superou a média brasileira e reforçou um modelo baseado em escala, produtividade e exportação. Até 2026, a fabricação catarinense deve ultrapassar a desenvolvida em São Paulo, o maior produtor em volume de peças, segundo levantamento do instituto Inteligência de Mercado (Iemi).

Enquanto a moda convencional trabalha com tamanhos pré-definidos e processos automatizados, a moda inclusiva exige atenção a detalhes funcionais que variam de pessoa para pessoa. A criação de roupas inclusivas também exige co-criação com os consumidores, além de possuir um ritmo próprio, o que torna inviável a produção em massa como as coleções tradicionais.

Mesmo com uma indústria tecnicamente capaz de se reinventar, as decisões estratégicas continuam sendo guiadas pela rentabilidade imediata. Para a professora Cristina Rodrigues Barbosa, especialista em moda e design, as empresas precisam deixar de enxergar a inclusão como custo e passar a ver como parte da responsabilidade social. “Em algum momento, elas vão ter que se adaptar, é digno e justo que as pessoas tenham uma solução”.

Idealizado pelos professores Sérgio Henrique Pezzin, Neide Schulte, Gabriela Kuhnen e Samanta Bullock, o projeto Moda Inclusiva surgiu da necessidade de formar profissionais preparados para atender pessoas com deficiência. “A proposta busca sensibilizar os estudantes para pensar o design de moda além da estética, considerando também as necessidades e limitações de diferentes corpos”, relata a professora Gabriela.

Para promover essa abordagem, foi firmada uma parceria com o projeto de Ramp. A colaboração Para promover essa abordagem, foi firmada uma parceria com o projeto de Ramp. A colaboração com a  fisioterapia aproximou os estudantes de moda de pessoas amputadas, que se tornaram modelos — assim, ampliando o sentido social do aprendizado.

Desde a implementação do projeto, a metodologia parte da escuta ativa. Os alunos se encontram com os modelos e registram suas rotinas, dificuldades, desejos estéticos e expectativas de como gostariam de ser vistos.

“Eles perguntaram como eu queria me ver, não o que eu podia vestir. Ninguém nunca tinha me feito essa pergunta”

relata Maria Regina, paciente do Ramp.

É a partir dessa troca que se inicia a etapa criativa, em que cada um dos 14 grupos de estudantes é responsável por acompanhar um modelo ao longo de todo o processo, da modelagem até à prova final. As adaptações incluem ajustes para próteses, aberturas com velcro ou ímãs e modelagens que favorecem a mobilidade, todas pensadas a partir da necessidade de cada um dos modelos.

Além da acessibilidade, o projeto também integra práticas sustentáveis. As roupas criadas para a coleção são produzidas a partir de peças reaproveitadas por meio do processo de upcycling, técnica que transforma peças usadas em novas. Nesse caso, roupas não comercializadas, por possuírem algum defeito, são encaminhadas para a Udesc através de uma parceria com uma empresa têxtil.

Atualmente, o projeto de extensão Jornalismo e Ação Comunitária (JAC), integra a iniciativa. O grupo tem acompanhado os bastidores da produção e, a partir de registros que valorizam o protagonismo das pessoas com deficiência, está produzindo um documentário e mostras fotográficas sobre todo o processo.

“Algo muito interessante desse projeto é que ele é feito pela lógica do jornalismo comunitário, que busca diluir a ideia de quem conta e de quem é contado”, relata a professora Isabel Colucci, que coordena o JAC junto com a professora Melina Ayres. “O nosso objetivo é documentar a vivência da pessoa com deficiência, a partir do olhar da potência. Entendo a deficiência como uma condição humana e um estilo de vida cheio de possibilidades”, complementa Melina. 

As peças desenvolvidas pelos alunos foram exibidas no desfile “Amputação em Movimento” no dia 17 de novembro de 2025, no Auditório Antonieta de Barros da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). O evento reuniu diferentes linguagens e expressões artísticas, com apresentação do Coral Vozes que não se calam, rodas de conversa, uma mostra fotográfica organizada pelo JAC, que documentou o processo criativo ao longo de quatro meses, e o desfile das peças, vestidas pelos próprios modelos. Durante a programação, a equipe do JAC  realizou a cobertura completa do evento e instalou um estúdio fotográfico itinerante,  onde foi produzido um editorial. A iniciativa ampliou a visibilidade da causa e fortaleceu o sentimento de pertencimento de pessoas historicamente invisibilizadas pela indústria da moda.

Em 2026, a proposta ganha continuidade com a mostra fotográfica “Retratos em Movimento: moda, corpo e amputação”, na Alesc, agora em diálogo com o Abril Laranja, mês dedicado à conscientização sobre amputação. Entre os dias 2 e 14 de abril, a galeria Cruz e Sousa recebe a exposição das imagens do editorial, acompanhadas de registros dos bastidores do projeto. Além das fotografias, o público poderá conferir quatro looks e seus respectivos desenhos, desenvolvidos por estudantes de moda ao longo do processo criativo, evidenciando o percurso desde a concepção até a confecção final das peças. Estas peças foram selecionadas para participar da Semana de Moda de Londres, em setembro, em parceria com a Bullok Inclusion.

Redação JAC

Equipe do Projeto

Jornalismo e Ação Comunitária

Projeto de Extensão do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

2020 – 2025